Artigo Original 3 - Viver com Estomia: Contribuições para a Assistência de Enfermagem
Abstract
Os estomizados, principalmente os de trauma abdominal, passam por mudanças e tem um grande impacto ao enfrentar a realidade nos aspectos biopsicossocial, fato que requer um cuidado de enfermagem holístico. O estudo teve como objetivo conhecer a vivência e adaptação dos pacientes em relação à estomia e suas atividades diárias. Trata-se de um estudo exploratório descritivo, com abordagem qualitativa, realizado com 10 estomizados por trauma abdominal, cadastrados no programa de estomizados de um centro referência de Teresina-PI. A coleta de dados ocorreu em fevereiro de 2010, mediante entrevistas semiestruturadas. Da análise das entrevistas emergiram as categorias: conhecimento sobre a estomia; mudanças ocorridas no cotidiano referente à alimentação, lazer e trabalho; vivência de constrangimentos inerentes à estomia. Observou-se que os pacientes estomizados por trauma abdominal só tinham conhecimento do que é a estomia e sua finalidade, depois da cirurgia realizada. Outro fato importante destacado nas falas é que esses pacientes sofrem mudanças nos hábitos de vida semelhantes aos pacientes que realizaram estomias por outras causas, a diferença entre ambos, está no procedimento cirúrgico de urgência, que envolve risco de vida, além do fato de não terem uma preparação prévia para as mudanças de vida, acarretando brusca alteração no fator psicológico, por estar comprometendo sua qualidade de vida, principalmente no que se refere ao lazer e as atividades laborais. Conclui-se que é imprescindível uma assistência de enfermagem pautada na integralidade e nas dimensões de seu fazer, em virtude da vulnerabilidade e magnitude do comprometimento em vários aspectos da vida desses usuários.Descritores: Estomia. Adaptação. Enfermagem.AbstractOstomy patients, especially those whose stoma was created after abdominal trauma, undergo changes in lifestyle, have a great impact on biopsychosocial aspects when facing reality, and require a holistic nursing care. The purpose of this study was to learn about the experience and adaptation of patients regarding the stoma and their daily activities. This qualitative, exploratory, descriptive study was conducted with 10 patients with ostomies after abdominal trauma, who were enrolled in a assistance program for the ostomy patient of a reference center in Teresina (Piauí, Brazil). Data were collected through semi-structured interviews in February 2010. Using thematic discourse analysis, the following categories were defined: knowledge about ostomy; changes in the daily routine regarding feeding, leisure and work activities; and experiences of embarrassment related to the ostomy. Patients with ostomies after abdominal trauma had knowledge of what ostomy is and its purpose only after the surgery was performed. Other important fact highlighted by the thematic discourse analysis was that these patients experience similar changes in lifestyle as do patients who had ostomy due to other causes. The difference between them is the life-threatening surgical emergency and the fact that trauma patients do not receive previous information about lifestyle changes associated with the procedure, which results in a sudden psychological change, affecting their quality of life, especially regarding recreation and work activities. We conclude that it is essential that nursing care be provided considering all of its aspects and dimensions due to the vulnerability of these patients and magnitude of their impairment in various aspects of life.Descriptors:Ostomy. Adaptation. NursingResumenLos ostomizados, especialmente por traumatismo abdominal, sufren cambios y tienen un gran impacto al enfrentar la realidad en los aspectos bio-psico-sociales, este hecho requiere una atención integral de enfermería. El estudio tuvo como objetivo comprender la experiencia y la adaptación de los pacientes en relación con el estoma y sus actividades diarias. Se trata de un estudio exploratorio descriptivo, con enfoque cualitativo, realizado con 10 ostomizados por traumatismo abdominal, inscritos en el programa de ostomizados de un centro de referencia de Teresina-PI. La recolección de datos tuvo lugar en febrero del 2010, a través de entrevistas semi-estructuradas. Del análisis de las entrevistas surgieron las categorías: conocimiento sobre la ostomía, los cambios diarios relacionados con la alimentación, el ocio y el trabajo, restricciones inherentes a la experiencia de la ostomía. Se observó que los pacientes ostomizados por traumatismo abdominal sólo tenían conocimiento de lo que es la ostomía y su propósito después de realizada la cirugía. Otro hecho importante que se destaca en el discurso es que estos pacientes sufren cambios en los hábitos de vida similares a aquellos pacientes que se sometieron a ostomía por otras causas, la diferencia entre ellos está en la cirugía de emergencia, que implica riesgo de vida, además del hecho de no tener una preparación previa para esos cambios en la vida, provocando cambios bruscos en el factor psicológico que afectan su calidad de vida, sobre todo cuando se trata de actividades de ocio y de trabajo. Se concluye que es esencial una atención de enfermería guiada por la integralidad y las dimensiones de su quehacer, en vista de la vulnerabilidad y la magnitud de la discapacidad en los diversos aspectos de la vida de esos usuarios.Palabras clave:Ostomía. Adaptación. Enfermería.IntroduçãoEstoma, palavra derivada do grego, significa a comunicação entre uma víscera oca e o exterior do corpo. Reconhecido como procedimento terapêutico, temporário ou definitivo, é indicado no tratamento de inúmeras patologias, com destaque para neoplasias colorretais, diverticulite, doenças intestinais inflamatórias e traumas, com perfuração do abdome em acidentes de trânsito, por arma de fogo ou arma branca, entre outros1,2,3.Por tratar-se de um procedimento invasivo e de exposição, os estomizados sentem um grande impacto ao enfrentar a realidade tanto no aspecto físico e psíquico, quanto relativos às dimensões sociais, espirituais, econômicas, culturais e até mesmo as sexuais destes pacientes 4,5,6,7.Essas pessoas constituem uma parcela de pacientes que têm sua perspectiva de vida modificada, principalmente pela imagem corporal alterada devido à presença do estoma. Além das alterações de hábitos alimentares e de higiene, precisam adaptar-se ao uso da bolsa coletora, fato que contribui para diminuir a autoestima, afetando sua vida e, frequentemente, conduzindo ao isolamento social, por sentir-se complexado e rejeitado8.Assim sendo, a experiência de ter um estoma é compreendida como um acontecimento traumático e agressivo em virtude das perdas reais e/ou simbólicas desencadeadas e por alterar a fisiologia gastrintestinal, o estoma ocasiona mudanças na autoestima, imagem corporal e autoconceito, perda da capacidade produtiva e alterações na vida sexual, causando mudanças na vida laborativa, familiar, social e afetiva 5,9,10.Para pacientes estomizados em decorrência de trauma, a situação ainda é mais crítica, pois se por um lado diferenciam-se no âmbito clínico pela diversidade de lesões quanto à natureza e gravidade, existe a imposição de uma nova realidade repleta de restrições e com mudanças bruscas do hábito de vida que dificulta ainda mais a adoção de medidas de adaptação e reajustamento social11.Nestes casos, o processo de reabilitação se torna ainda mais difícil, pois a pessoa anteriormente apresentava-se em perfeito estado de saúde e repentinamente tem que se adaptar a uma nova realidade repleta de restrições. Além do desconforto, há o aumento dos gastos com medicamentos, bolsas coletoras e materiais necessários ao autocuidado, bem como aquisição de novos hábitos, entre eles a alimentação e enfrentamento de situações psicológicas desagradáveis na sua própria casa, com seus familiares, amigos ou parceiros.Logo, este estudo justifica-se pela importância de se conhecer e compreender as pessoas estomizadas em situações de urgência, pois a partir do relato de suas vivências, a enfermagem planejará sua assistência não só visando os cuidados com o estoma, mas focada principalmente nos aspectos psicológicos, visto que o estresse vivenciado pelo paciente vítima de um trauma é bem mais intenso do que em outras situações em que há tempo para algum preparo.ObjetivosConhecer a vivência de pacientes estomizados em decorrência de trauma abdominal e a adaptação destes em relação à estomia e suas atividades diárias.MétodosTrata-se de um estudo exploratório, descritivo, com abordagem qualitativa, realizado em fevereiro de 2010, com 10 estomizados por trauma abdominal, cadastrados em um programa de acompanhamento vinculado a um Centro de Referência a Estomizados da Fundação Municipal de Saúde do município de Teresina – PI.O método qualitativo é usado para explorar grupos ou experiências relacionados à saúde ou à doença, assim os participantes são selecionados propositalmente devido a suas experiências com relação ao fenômeno estudado, o que traz maiores informações das vivências práticas de cada sujeito12. Para a inclusão na pesquisa, utilizaram-se os seguintes critérios: ser paciente com estomia intestinal, provisória ou definitiva, em decorrência de traumas abdominais, de ambos os sexos, na faixa etária acima de 14 anos, por compreender que, os adolescentes e adultos jovens, em geral, estão mais expostos a traumas por acidentes e violências.A coleta de dados ocorreu mediante a utilização de um roteiro de entrevistas semiestruturadas, gravadas e posteriormente transcritas. Utilizou-se, também, um diário de campo, para registros dos sentimentos e outras percepções observados no momento da entrevista, o que permitiu maior aproximação com a realidade investigada. A coleta foi encerrada quando houve a saturação dos dados, levando-se em consideração a repetição dos conteúdos, falas, significados e singularidades das vivências, conforme sistemática desenvolvida em pesquisa qualitativa.Após a realização de cada entrevista, foi feita a escuta atenta das gravações e, posteriormente, a transcrição para a leitura textual, objetivando dar mais fidedignidade da reprodução da fala, oferecendo a segurança para riscos de interpretações equivocadas.A análise de dados efetuou-se após a transcrição na íntegra dos relatos, utilizando-se o método de análise de conteúdo, seguindo-se três etapas: pré-análise, exploração do material e tratamento dos resultados obtidos, com interpretação recomendada. Após essa etapa, aconteceram leituras aprofundadas, organização dos dados em grupos temáticos e, em seguida, organização em categorias, analisadas com base na literatura pertinente ao tema. O estudo foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade Integral Diferencial (FACID) e aprovada em 25/01/2010, sob o protocolo nº 198/2009, respeitando a Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde, que regulamenta a pesquisa com seres humanos. Para garantia da confidencialidade e anonimato dos depoentes, os referenciamos com a letra “E” seguido das siglas numéricas 1 a 10. Todos os participantes formalizaram a participação mediante assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido.ResultadosAs informações obtidas referentes às questões sóciodemográficas, econômicas e clínicas, estão descritas no quadro 1, e caracterizam os participantes do estudo. Entre os 10 pacientes com estomia intestinal decorrente de trauma abdominal, oito eram do sexo masculino. A faixa etária variou de 14 a 90 anos, sendo que oito pessoas tinham idade inferior a 60 anos, e uma na faixa etária superior a 60 anos. Portanto, a maioria em plena fase produtiva de vida. Quanto ao estado civil, os participantes do estudo apresentaram um perfil bem diversificado, pois quatro declararam ser solteiros, três casados e três divorciados. Em relação ao tipo de estoma, observou-se que nove eram colostomizados e um ileostomizado, entre os quais três possuíam estoma definitivo. Quanto aos tipos de traumas que resultaram na realização da estomia, cinco eram decorrentes de acidentes de trânsito, dois por arma branca, dois por arma de fogo e um por queda acidental.
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